sex care

Por que cuidar da sua sexualidade também é autocuidado – e por que isso não tem nada a ver com comprar o produto certo.

Você provavelmente tem uma rotina de check-up. Exames em dia, talvez uma rotina de skincare, um aplicativo de sono, uma terapia, um treino fixo na semana. Nos últimos meses, até os medicamentos para emagrecimento entraram nessa conversa sobre autocuidado.

E a sua saúde sexual? Ela entra nessa lista, ou continua sendo aquele assunto que só aparece quando alguma coisa já não vai bem?

Não é coincidência que termos como sex care e sexual wellness estejam aparecendo cada vez mais. A Organização Mundial da Saúde já trata saúde sexual como parte do bem-estar físico, emocional e social desde 2006 – não como tendência passageira, mas como definição técnica reconhecida internacionalmente. O que mudou foi a velocidade com que esse conceito chegou à conversa cotidiana.

Se você acompanhou o post que fiz no Instagram sobre isso, este texto vai um pouco mais fundo no assunto.

O que é, de fato, sexual wellness

A definição da OMS para saúde sexual não fala em ausência de problema. Fala em bem-estar físico, emocional, mental e social em relação à sexualidade, e na possibilidade de viver experiências sexuais prazerosas e seguras, livres de coerção e discriminação.

Sexual wellness é esse guarda-chuva: a ideia de que a sexualidade não é um compartimento isolado da saúde, separado do resto da vida.

Sex care, por sua vez, é a parte prática disso. É perceber o próprio corpo, notar mudanças no desejo, cuidar da prevenção, manter exames em dia, conseguir falar sobre limites e buscar ajuda quando algo incomoda. É rotina, não evento.

Por que essa conversa cresceu agora

Não é só percepção sua. Em 2024, a McKinsey identificou a saúde sexual como uma das sete áreas de maior crescimento dentro do mercado global de bem-estar, puxada pela ampliação do debate público sobre sexualidade e pelo reconhecimento maior de questões femininas como baixa libido, ressecamento vaginal e dor durante a relação. Na pesquisa, 87% dos consumidores americanos disseram ter gastado o mesmo ou mais com produtos de saúde sexual no último ano – lubrificantes, contraceptivos e produtos eróticos foram os mais citados.

O Global Wellness Institute aponta na mesma direção: entre as tendências de bem-estar mental para 2025, a instituição nomeou a evolução do autocuidado pela autoconsciência e autorresponsabilidade como um dos eixos centrais do setor. Ou seja: a virada não é só sobre comprar mais produtos. E sim sobre as pessoas quererem entender melhor o próprio corpo e assumir mais autonomia sobre ele. E a sexualidade entrou nessa pauta porque sempre deveria ter estado lá.

O risco de transformar isso em mais uma prateleira

Aqui mora o problema: esse movimento todo pode virar só consumo. Comprar um óleo bonito, um brinquedo, um suplemento, postar… e achar que a vida sexual está resolvida porque o “recebido” chegou.

Sex care não funciona assim. Ele não começa numa compra. Começa numa pergunta mais simples e mais incômoda: o que o meu corpo está tentando me mostrar?

Como comentei no #PitadasDaMichelle desta semana, é preciso equilíbrio para que sexual wellness não vire mais uma cobrança dentro do pacote de autocuidado. Trocar a vergonha por consumo não é avanço – é só mudança de prisão.

sex care

O que o corpo costuma avisar primeiro

A maioria das pessoas só olha para a própria sexualidade quando alguma coisa trava, dói ou some. Mas o corpo costuma falar antes disso, em sinais bem menores e sutis: uma dor que vai se tornando parte da rotina e deixa de ser questionada, um desejo que foi diminuindo sem ninguém perguntar por quê, uma dificuldade de dizer o que incomoda durante o sexo, uma relação que acontece no automático, mais para corresponder do que para sentir aquela experiência.

Nenhum desses sinais é dramático isoladamente. O problema é quando viram pano de fundo na vida da pessoa, e ela só percebe quando o desconforto já está grande.

Por onde começar o check-in

No #DicasDeUmaSexóloga desta semana, trouxe seis perguntas práticas para você revisar a própria rotina de sex care. Vale a pena passar por elas com calma. Mas quero adicionar aqui duas camadas que não couberam no carrossel.

A primeira é sobre vergonha. Boa parte do silêncio em torno da sexualidade não vem de falta de informação, vem de constrangimento mesmo entre pessoas com acesso a ela. Saber que dor durante o sexo não é normal e ainda assim não comentar isso com um médico por meses são duas coisas diferentes. O check-in de sex care também é sobre encarar esse desconforto de falar.

A segunda é sobre tempo. Sex care não é ritual de uma vez só, é observação contínua – o que muda no seu corpo em um período de estresse não é igual ao que muda numa fase mais tranquila. Tratar a saúde sexual como algo fixo é um dos motivos pelos quais ela acaba esquecida: ela se move junto com o resto da sua vida.

E essa observação contínua tem respaldo científico direto. Um estudo publicado no Journal of Sexual Medicine acompanhou 696 pacientes em terapia sexual em Quebec, entre 2017 e 2022, e identificou que quanto maior a capacidade da pessoa de perceber o próprio corpo e as próprias emoções sem julgamento, menor o nível de sofrimento sexual relatado – em grande parte porque essa percepção mais atenta fortalece a autoestima sexual. Ou seja: o simples hábito de prestar atenção em como você vive a própria sexualidade, sem se cobrar por isso, já é parte do tratamento.

Se preferir algo mais direto, resumi o tema em vídeo no #RapidinhasDaMichelle desta semana.

Quando a terapia sexual entra nessa conversa

Na prática clínica, costumo dizer que incômodo ou sofrimento que se repete por pelo menos seis meses merece investigação com mais cuidado. Não dá para ficar só observando. Dependendo do caso, isso pode passar pela terapia sexual, pelo ginecologista, pelo urologista, pelo fisioterapeuta, ou por todos juntos. A terapia sexual é uma das ferramentas mais diretas para entender o que está acontecendo – e não é só para quadros de disfunção. Ela também ajuda a entender a relação com o próprio corpo, o impacto da ansiedade e da vergonha, e os efeitos de uma educação em sexualidade que, para muita gente, simplesmente não existiu.

Se você nunca fez uma sessão e tem dúvidas sobre como funciona na prática, escrevi um guia sobre como se preparar para a primeira sessão de terapia sexual.

Saúde sexual é saúde, sem ressalva

Faz sentido cuidar da pele, do sono, da alimentação e da saúde mental e continuar tratando a sexualidade como assunto à parte, vergonhoso ou só lembrado quando há um problema? A saúde sexual influencia autoestima, ansiedade, sono e qualidade da relação – ela não é um departamento isolado do resto da sua saúde, é só a parte que mais aprendemos a calar.

Quer entender melhor como o desejo se movimenta com o tempo e por que ele oscila mesmo em relações saudáveis? Tenho dois textos que conversam direto com esse: frequência sexual e bem-estar e a romantização do desejo. E se o assunto for aquele desconforto emocional que às vezes aparece depois do sexo, mesmo quando tudo correu bem, vale a leitura sobre culpa depois do sexo.

Sex care não é luxo. É escuta do corpo.

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Fontes e referências

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