
Entenda por que a assexualidade não tem a ver com trauma, celibato, religiosidade nem disfunção sexual – e por que falar sobre o tema com mais conhecimento importa tanto.
Existe uma ideia muito enraizada de que o desejo sexual é obrigatório para validar uma relação, uma identidade ou uma vida afetiva. Como se viver fora desse script fosse sinal de bloqueio, falha, trauma ou distanciamento emocional. É justamente aí que começam muitos dos equívocos sobre a assexualidade.
A assexualidade não é frieza. Não é falta de amor. Não é, por si só, uma disfunção sexual. E também não deve ser automaticamente explicada por religiosidade, repressão, trauma ou “algum problema biológico”. Em termos gerais, estamos falando de pessoas que sentem pouca ou nenhuma atração sexual. Mas isso não significa, automaticamente, ausência de afeto, de intimidade ou incapacidade de construir vínculos profundos. É importante entender que a assexualidade é uma orientação sexual e difere de abstinência sexual e celibato.
Se você veio do post que publiquei no Instagram sobre esse tema, este texto vai mais fundo na conversa!
O que é assexualidade?
A assexualidade costuma se referir a pessoas que sentem pouca ou nenhuma atração sexual. Mas essa definição não fecha a experiência num bloco único. A sexualidade existe em um amplo espectro e há variações dentro da própria experiência assexual, incluindo identidades como gray-assexualidade e demissexualidade – estas, entendidas como uma área ‘cinza’ em que a pessoa pode sentir atração sexual em situações muito específicas. A autodefinição de como a pessoa se entende, inclusive, deve ser parte central dessa compreensão.
Isso importa porque um erro muito comum é imaginar que assexualidade signifique ausência total de tudo: de afeto, de vínculo, de intimidade, de curiosidade, de relacionamento. Só que a sexualidade e as relações não funcionam assim. Algumas pessoas assexuais desejam relações românticas. Outras, não. Algumas podem fazer sexo em determinados contextos. Outras não têm interesse nisso. E nenhuma dessas vivências é menos legítima por escapar do padrão mais esperado socialmente.
Assexualidade não é celibato, abstinência ou religiosidade
Essa é uma das confusões mais frequentes. Celibato e abstinência dizem respeito a comportamento. A pessoa pode sentir atração sexual e, ainda assim, escolher não se envolver sexualmente, por motivos religiosos, pessoais, sociais ou circunstanciais. Já a assexualidade não se define por uma decisão de “não fazer sexo”, mas pela forma como a atração sexual é percebida.
Por isso, também é equivocado associar automaticamente a assexualidade à religiosidade. Crenças religiosas podem influenciar escolhas de comportamento sexual, mas não explicam, por si só, uma orientação. Misturar essas camadas apaga a diferença entre identidade e conduta. Esse é um dos erros mais comuns quando se tenta enquadrar toda experiência fora do padrão como escolha moral ou repressão.
É errado usar o termo “assexuado”?
Quando falamos de pessoas, o termo mais adequado é assexual.
Pode parecer detalhe, mas não é. “Assexuado” carrega um sentido impreciso, como se estivéssemos falando de ausência de sexualidade ou de uma condição não humana. E não é disso que se trata quando falamos de uma orientação sexual. Se a proposta é falar com respeito e precisão, a linguagem importa.
Assexualidade não é trauma nem “bloqueio”
Traumas podem impactar a sexualidade? Podem, com certeza. Assim como ansiedade, depressão, uso de medicamentos, conflitos no relacionamento e uma série de outras experiências podem impactar desejo, prazer e disponibilidade sexual. Mesmo assim não podemos presumir que toda pessoa assexual esteja “reagindo” a um trauma ou vivendo algum tipo de bloqueio emocional.
Esse tipo de interpretação apressada, infelizmente, é bastante comum. Um estudo sobre assexualidade no Reino Unido, de 2025, trouxe o dado de que cerca de 20% a 25% dos participantes viam a assexualidade como um problema de saúde mental, e quase um terço acreditava que ela poderia ser “curada” por terapia. Mas isso não descreve a assexualidade. Descreve, sim, o quanto ela ainda é mal compreendida socialmente.
Assexualidade é a mesma coisa que síndrome do desejo sexual hipoativo?
Não. E é importante entender essa diferença.
O transtorno do desejo sexual hipoativo, ou TDSH, envolve ausência ou redução persistente de fantasias, pensamentos ou desejo sexual acompanhada de sofrimento. Já na assexualidade não há sofrimento e nem queixa de perda de desejo que a pessoa queira “corrigir”.
Na prática, isso muda tudo. Uma pessoa pode ter pouco interesse sexual e sofrer com isso, o que pede uma investigação cuidadosa. Outra pode viver bem sem atração sexual, sem sofrimento e sem desejo de mudança. Confundir as duas experiências é clinicamente ruim e conceitualmente impreciso.
E a biologia? A assexualidade tem a ver com hormônio ou “problema físico”?
Não é correto reduzir a assexualidade a uma falha do corpo. Condições hormonais, médicas ou medicamentosas podem, sim, interferir na libido e na resposta sexual. Mas isso é diferente de dizer que a assexualidade, em si, seria um problema orgânico.
Um experimento publicado em 2011 analisou a resposta psicofisiológica de mulheres assexuais a conteúdos sexuais e comparou com a resposta de mulheres alossexuais (que sentem atração sexual). Os resultados não mostraram diferença, sugerindo que sentir ou ter ausência de desejo não estaria ligado a uma disfunção física. Isso não “explica tudo”, claro. Mas ajuda a desmontar a ideia de um suposto defeito biológico como causa obrigatória da assexualidade.
Pessoas assexuais podem construir relações profundas?
Podem, claro! E esse é outro ponto que muita gente tem dificuldade de entender.
A ausência ou baixa atração sexual não implica ausência de amor romântico, de apego, de desejo de ter uma parceria ou um projeto de vida a dois. Algumas pessoas assexuais desejam relações românticas, enquanto outras não. E todas essas vivências são válidas.
Um estudo deste ano publicado na Archives of Sexual Behavior trouxe dados interessantes sobre isso. Comparadas a mulheres heterossexuais, mulheres assexuais mostraram mais interesse em relações românticas não sexuais, em formatos alternativos de relacionamento – elas buscavam vínculos fortes, mas preferiam construir essas relações fora dos modelos tradicionais esperados. O mesmo estudo observou que elas davam menos importância à atributos como atração física, experiência na cama, segurança financeira, mas não houve diferença relevante na valorização de educação, gentileza e inteligência.
Em resumo: quando a reprodução e a atração sexual não estão presentes como objetivos primários, o estudo sugere que outros fatores influenciam a escolha da parceria. E mais: o vínculo não desaparece, ele apenas pode ser organizado por outras prioridades.
Então, em vez de perguntar “o que falta?” ou “será que nunca vai namorar?”, talvez seja mais inteligente perguntar “que tipo de vínculo essa pessoa deseja construir?”.
Invisibilidade, desinformação e custo social
Quando uma sociedade assume que o desejo sexual é obrigatório, tudo o que escapa desse modelo corre o risco de ser lido como defeito, desvio ou fracasso.
Uma outra pesquisa britânica mostrou que os respondentes assexuais apresentaram uma das menores satisfações com a vida dentro da comunidade LGBT+ analisada e estavam entre os menos propensos a se assumir para amigos e vizinhos.
No Brasil, um levantamento divulgado pela Agência Brasil em 2022 informou que 12% dos adultos brasileiros entrevistados se identificaram como ALGBT. Dentro desse grupo, 5,76% se declararam como assexuais. O próprio estudo foi apresentado como inédito na América Latina, e o dado ajuda a tirar a assexualidade do lugar de invisibilidade e irrelevância social.
Como falar sobre assexualidade sem patologizar ninguém
Vamos de uma dose de educação em sexualidade?
- Não trate diferença como defeito
Nem tudo o que foge da norma é problema. Antes de tentar corrigir, tente compreender. - Não use “assexuado” para pessoas
Prefira “assexual”. Pode parecer detalhe, mas não é. As palavras não são neutras: elas influenciam a maneira como escutamos e interpretamos o outro. - Não presuma trauma, repressão ou medo de intimidade
Essas hipóteses podem fazer parte da história de algumas pessoas, mas não definem a assexualidade em si. - Não confunda orientação com comportamento
Fazer sexo, não fazer sexo, desejar romance, evitar intimidade ou ter curiosidade sexual não resolve, sozinho, a pergunta sobre orientação. - Escute como a própria pessoa se nomeia
Quando falamos em sexualidade, isso não é só detalhe. A autoidentificação da pessoa é a parte mais importante da definição.
Em vez de frieza, talvez a palavra seja pluralidade
Chamar a assexualidade de “frieza” é reduzir a complexidade da sexualidade humana a uma régua estreita demais.
As pessoas podem ter um relacionamento feliz e saudável sem atração sexual. E podem ter intimidade sem erotismo.
Afinal, as relações não precisam seguir o mesmo modelo.
Falar sobre assexualidade com responsabilidade é ampliar repertório, trocar suposição por escuta e parar de problematizar automaticamente quem vive fora do padrão dominante. A sexualidade humana é mais plural do que muita gente foi ensinada a imaginar.
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Fontes e referências
- Agência Brasil. Brasil tem 12% de pessoas ALGBT, mostra levantamento.
- ISSM. What Is Asexuality?
- Yule, M. A.; Brotto, L. A.; Gorzalka, B. B. What Do Asexual Women Want? A Propensity Score Matching Study of Preferred Relationship Options and Ideal Partner Preferences. Archives of Sexual Behavior, 2025.
- Brotto, L. A.; Yule, M. A. Physiological and Subjective Sexual Arousal in Self-Identified Asexual Women. Archives of Sexual Behavior, 2011.
- Government Equalities Office. National LGBT Survey: Research Report.
- Sanders, C. K.; Hirneis, C.; Benoit, J. Asexuality in the UK: Public attitudes towards asexuality and asexual people. King’s College London Policy Institute, 2025.
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