
Como a pressão por mudança afeta o desejo, os relacionamentos e a forma como nos cuidamos no início do ano.
Para muitas pessoas, o início do ano vem acompanhado de um sussurro interno dizendo “agora precisa dar certo”, “mudanças precisam acontecer” ou “eu deveria me tornar outra pessoa”.
Esse tipo de pensamento não surge do nada. Ele é alimentado por expectativas sociais, comparações constantes e também por uma cultura que associa recomeços a transformações radicais. O problema é que, quando essa lógica entra na vida emocional, nos relacionamentos e na sexualidade, o efeito costuma ser o oposto do desejado: mais ansiedade, menos prazer e menos conexão.
Neste texto, vamos entender por que a cobrança costuma aumentar no começo do ano, o que a ciência diz sobre isso e como recomeçar de forma mais gentil – especialmente na vida afetiva e sexual.
Entenda o fresh start effect e por que ele pesa tanto no começo do ano
A psicologia comportamental descreve um fenômeno chamado fresh start effect (efeito do recomeço). Pesquisadores da Universidade da Pensilvânia demonstraram que marcos temporais – como ano novo, aniversários ou até o primeiro dia útil do ano – aumentam a motivação para mudanças pessoais.
Esses marcos funcionam como uma espécie de “linha imaginária” entre quem fomos e quem gostaríamos de ser. Em teoria, isso pode ser positivo: ajuda a iniciar hábitos, organizar prioridades e criar senso de renovação.
O problema aparece quando esse impulso vira cobrança excessiva. Em vez de favorecer o movimento, ele paralisa. Em vez de inspirar, gera sensação de inadequação.
Quando a cobrança chega à sexualidade e aos relacionamentos
A pressão por mudança raramente fica restrita ao trabalho ou à saúde física. Ela costuma invadir áreas muito sensíveis da vida, como os relacionamentos e a sexualidade.
É comum surgirem pensamentos como:
“Era para eu estar com mais tesão.”
“Era para eu ser mais transante.”
“Era para eu ser mais (preencha aqui com a cobrança do dia).”
Essas ideias partem de uma lógica de desempenho como se a sexualidade fosse algo a ser otimizado, corrigido ou acelerado. Mas a gente sabe: desejo não funciona assim. Desejo e cobrança não combinam.
Por que desejo e cobrança não combinam?
A ciência já mostrou que o desejo sexual é altamente afetado pelo contexto emocional. Estresse, ansiedade, comparação, insegurança e autoexigência estão associados à diminuição do desejo e da satisfação sexual.
Quando a pessoa se sente observada, avaliada ou em dívida com uma expectativa (própria ou do outro), o corpo tende a entrar em estado de alerta, e não de relaxamento e entrega.
Por isso, quanto maior a cobrança por “ter desejo”, menos espaço ele encontra para surgir.
Metas de aproximação x metas de evitação: o que a ciência mostra
Um estudo publicado em 2020, que acompanhou pessoas após estabelecerem resoluções de ano novo, trouxe um dado importante: metas de aproximação funcionam melhor do que metas de evitação.
- Metas de aproximação:
“Quero cuidar mais de mim.”
“Quero incluir mais prazer na minha rotina.”
“Quero ter um estilo de vida mais saudável.” - Metas de evitação:
“Não posso falhar.”
“Preciso parar de ser assim.”
As metas de aproximação tendem a gerar mais persistência, menos frustração e maior sensação de bem-estar. Isso vale também para a vida sexual e afetiva. Aproximar-se do cuidado costuma ser mais eficaz do que tentar eliminar falhas, que muitas vezes só existem na nossa cabeça.
O impacto da comparação nas redes sociais
Outro fator que pesa especialmente no início do ano é a comparação, intensificada pelas redes sociais. Estudos indicam que olhar para os outros nas redes pode gerar maior insatisfação e ansiedade sobre o corpo, o desempenho e até a vida sexual, simplesmente porque comparação social é um processo cognitivo que mexe com autoestima e autoimagem.
Na vida sexual, isso pode levar a:
- desconforto com o próprio corpo,
- sensação de inadequação,
- dificuldade de se entregar.
Autocompaixão como proteção para a vida sexual
Pesquisas apontam a autocompaixão como um fator importante de proteção emocional. Pessoas que conseguem se tratar com mais gentileza – em vez de crítica constante – relatam menor sofrimento sexual e maior abertura para lidar com dificuldades nos relacionamentos.
Ser autocompassivo não é ”passar pano” para os problemas. É criar espaço para desejo e conexão, e não pressão e cobrança.
Gentileza não diminui o desejo. Ela cria espaço para ele poder existir.
Sexualidade sem cobrança: recomece mais leve
Que tal: menos “preciso ser outra pessoa” ou “preciso ter alguém” e mais “vou tentar o que é possível pra mim”?
Menos performance. Menos comparação. Mais presença. Mais conversa. Mais cuidado possível com você e com quem se relaciona.
5 lembretes importantes para quem está se cobrando demais neste começo de ano
1. Você não precisa mudar tudo para merecer bem-estar
Na sexualidade, isso pode significar não transformar o desejo em meta anual.
Por exemplo: em vez de “preciso ter mais tesão”, que tal começar respeitando quando o corpo pede pausa?
2. Desejo não responde a ordens
Ele responde ao contexto emocional.
Por exemplo: insistir em transar mesmo exausto ou ansioso raramente aumenta o prazer. Por outro lado, conversar, descansar ou se sentir acolhido costuma ajudar muito mais.
3. Seu ritmo não está errado
A frequência ideal não é a dos outros.
Por exemplo: casais passam por fases diferentes, e isso não significa que há algo “quebrado” na relação ou em você.
4. Gentileza não é acomodação
Ser gentil consigo cria segurança emocional.
Por exemplo: trocar o pensamento “tem algo errado comigo” por “o que meu corpo está tentando me dizer agora?” já muda completamente a experiência.
5. Recomeçar pode ser mais leve do que te ensinaram
Na prática, isso pode ser bem simples.
Por exemplo: em vez de querer alcançar uma mudança radical na vida sexual, permita-se gostar do próprio corpo hoje e do prazer que ele pode proporcionar.
Para refletir com mais leveza: filmes e séries que tocam nesse tema
Aqui, algumas sugestões para te ajudar a refletir sobre autocobrança, identidade, desejo e relações de forma sensível:

Sex Education
Uma série que aborda sexualidade, inseguranças, desejo e relações sem idealizações, mostrando como a pressão por desempenho afeta profundamente a intimidade.

As Horas
Um retrato delicado sobre expectativas, identidade e o peso das exigências internas e externas ao longo da vida.

Comer, Rezar, Amar
Uma boa inspiração para refletir sobre recomeços menos performáticos e mais conectados ao autocuidado e ao prazer de existir.
Essas obras não trazem respostas prontas (afinal, elas não existem!), mas podem abrir perguntas importantes, que muitas vezes evitamos quando estamos nos cobrando demais.
Para encerrar
Talvez o convite deste início de ano não seja “fazer mais” ou “mudar radicalmente”. Talvez seja se escutar melhor, se tratar com mais respeito e permitir que desejo, vínculo e prazer encontrem espaço sem tanta cobrança.
Se esse texto fez sentido para você, deixe sua opinião nos comentários: o que você tem mais se cobrado neste começo de ano?
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Recomeçar pode ser mais leve.
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