dificuldades sexuais em jovens

A ideia de que “juventude = vida sexual sem problemas” não se sustenta mais.

Desejo em alta, corpo sempre disponível, sexo sem esforço – essa costuma ser a expectativa geral sobre a vida sexual de quem é jovem. No consultório, vejo dificuldades sexuais em jovens toda semana, mais do que essa imagem sugere.

Vejo muitos jovens chegando com ansiedade na cama, dificuldade de se excitar, de ter ou manter uma ereção, de sentir desejo. Vários também trazem o medo de não performar bem. Outros carregam a sensação de que a vida sexual dos outros é melhor que a deles (a grama do vizinho…).

Essas queixas não são raras. E a ciência já vem documentando isso.

🔗 Falei sobre esse tema neste post.

Depressão e função sexual em adolescentes: o que mostra a ciência

Um estudo prospectivo publicado em 2023 no Journal of Clinical Psychiatry acompanhou 263 participantes entre 15 e 20 anos – a maioria com transtorno depressivo maior (um quadro de depressão persistente que afeta humor, energia, sono, prazer e funcionamento da vida) – por até dois anos.

O resultado: a gravidade da depressão, e não da ansiedade, esteve associada a uma função sexual pior, incluindo excitação, orgasmo e prazer. Doses mais altas de antidepressivo também vieram acompanhadas de pior função orgásmica.

Isso muda a pergunta que costuma ser feita diante de dificuldades sexuais em jovens. Antes de assumir “falta de tesão” ou “fase passageira”, é fundamental investigar o que está acontecendo com a saúde mental dessa pessoa.

Mulheres jovens não estão de fora dessa estatística

Quando se fala em dificuldade sexual entre jovens, a imagem que costuma vir à mente é masculina – a ereção, principalmente. Mas um estudo com 1.527 universitárias, publicado na revista Ciência et Praxis (UEMG) em 2025, foi direto ao ponto: mais da metade delas tinha alguma disfunção sexual, e mais da metade também apresentava algum transtorno mental comum, como ansiedade ou uma depressão mais leve. E as duas coisas estavam significativamente relacionadas entre si.

Sofrimento psíquico e vida sexual não caminham separados – nem para elas, nem para eles, como você vai ver a seguir.

Disfunção erétil antes dos 40: raramente é “só a cabeça”

Quando um homem jovem chega com dificuldade de ereção, é comum ouvir de quem está ao redor frases como “você precisa relaxar”, “você anda muito estressado” ou “você tem trabalhado demais” – como se fosse só “coisa da cabeça”. Revisões internacionais recentes mostram um quadro mais complexo.

A disfunção erétil antes dos 40 pode envolver ansiedade de desempenho, depressão, problemas na relação, sono ruim, sedentarismo, obesidade, uso de substâncias e alterações hormonais, metabólicas ou cardiovasculares. Fatores psicológicos e fatores orgânicos aparecem juntos com mais frequência do que se costuma admitir – e tratar só como disfunção sexual “da cabeça” fecha a porta para investigar o resto.

🔗 No #PitadasDaMichelle, resumi esse ponto: autocobrança, comparação e preocupação com performance atrapalham a vivência da sexualidade – e a grande dificuldade dessa geração não é falta de liberdade sexual, nem falta de informação. É o excesso de vigilância sobre si.

A cultura digital entrou na cama

Essa geração cresceu exposta a conteúdos e referências sobre sexo antes de ter espaço para conversar sobre o assunto. Muita referência, estímulo sem fim, e pessoas despreparadas se passando por especialistas.

O algoritmo oferece estímulo constante: corpo, performance, comparação, dica rápida, corte perfeito. Mas não ensina sobre maturidade sexual, nem o que fazer quando as coisas não saem como o esperado.

Conteúdo adulto não é educação em sexualidade. Foi feito com foco em excitar, não em ensinar. Quando vira a principal referência sobre sexo, o jovem passa a comparar o que vivencia com o que vê – e essa conta fica difícil de fechar. A comparação não fica só no feed – o que já seria ruim. Ela vai junto para o quarto também. Isso ajuda a explicar boa parte das dificuldades sexuais em jovens hoje.

🔗 No #RapidinhasDaMichelle, perguntei: o que o algoritmo te ensina sobre desejo?

🔗 No #DicasDeUmaSexóloga, detalhei como a cultura digital entrou na cama – e por que crescer exposto a referência não é o mesmo que crescer com educação em sexualidade.

dificuldades sexuais em jovens

Quando a expectativa vira pressão

Boa parte das dificuldades sexuais em jovens nasce disso. No consultório, não é raro o jovem achar que deveria saber tudo: quanto tempo durar, como excitar a parceria, como conduzir, como impressionar. Como se a vida sexual viesse com manual e avaliação no final. Spoiler: essa mania de seguir script no sexo não é exclusividade de jovem – muito adulto por aí vive exatamente assim.

Expectativa alta demais atrapalha: o corpo percebe a pressão e responde a ela. Quando a pessoa fica fiscalizando o próprio desempenho o tempo todo, a excitação vai embora. A resposta sexual depende de contexto, segurança, presença e conexão – não de aprovação.

Para muitos homens jovens, o sexo vira prova de desempenho. E a cobrança sai de dentro, não da parceria: é uma voz interna fiscalizando cada momento, insistindo que é preciso provar que quer, que consegue, que aguenta, que está no controle. Só que sob esse tipo de pressão, o desejo costuma ficar tímido.

Vida sexual real é outra coisa, bem diferente. É o corpo que não obedece na hora certa. É a hora que cansa e precisa de pausa, de conversa, de ajuste. Tem vergonha, tem dia que não dá nada certo – e isso não é falha. Rir de si mesmo nesses momentos muda o clima mais do que qualquer tentativa de consertar a cena. É o que a intimidade de verdade é.

Essa mesma lógica de cobrança aparece fora da juventude também. Já escrevi sobre isso em sexualidade sem cobrança, e sobre como a cabeça entra na frente do prazer na reestruturação cognitiva que costumo trabalhar em terapia sexual.

Dificuldades sexuais em jovens: quando buscar ajuda

Se a dificuldade sexual de um jovem persiste, ela raramente é só fase. Pode ser sinal de sofrimento psíquico não tratado, de uma questão orgânica que merece investigação, ou do excesso de pressão e comparação acumulado ao longo dos anos.

Na prática, o que mais aparece no consultório é medo de errar disfarçado de falta de desejo.

A terapia sexual trabalha exatamente essa reconstrução: tirar a sexualidade do lugar de prova de desempenho e devolver a ela o lugar de experiência, vínculo e descoberta.

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Fontes e referências

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